Alvo não é mais o Cachoeira
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Parlamentares e partidos que participam da comissão parlamentar de inquérito tentam atingir adversários e blindar aliados e acabam esquecendo que o alvo da investigação é o contraventor Carlinhos Cachoeira e quais deveriam ser os objetivos das investigações
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cqueiroz@jornalcoletivo.com.br Redação Jornal da Comunidade
Foto: Jose Cruz/AbrCarlinhos Cachoeira, ao lado do seu advogado, ex-ministro da Justiça Márcio Tomaz Bastos: silêncio durante a CPI irritam parlamentares
A Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) instalada no Congresso Nacional para investigar o bicheiro Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, tem sido palco para orquestração de vinganças, perseguições e para desacreditar opositores. Nesta comissão pode acontecer de tudo, menos o interesse público de desvendar os esquemas do bicheiro que causaram prejuízos aos cofres públicos. Apesar de ser o centro da investigação, Carlos Cachoeira não é o alvo preferencial dos parlamentares e corre o risco de virar um mero espectador da controversa apuração e troca de acusações dos congressistas.
O deputado federal paranaense Fernando Franceschini (PSDB) tem como alvo preferencial o governador do Distrito Federal, Agnelo Queiroz (PT). Ex-delegado de polícia, o parlamentar soube que, por diversas vezes, a quadrilha de Carlinhos Cachoeira teria violado seu e-mail, mas insiste em atrelar o bicheiro ao GDF, visto que na época da violação o deputado investigava contratos do governo de Agnelo. Franceschini chegou a denunciar o governador brasiliense por enriquecimento ilícito e até a pedir a cassação do petista.
O deputado federal Cândido Vacarezza (PT-SP), um dos principais articuladores da base governista na CPI, roubou a cena durante sessão da CPI do Cachoeira, ao expressar por meio de um torpedo (mensagem via celular) seu empenho em blindar o governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral (PMDB), que corre risco de ser convocado a depor na comissão. “A relação com o PMDB vai azedar na CPI. Mas não se preocupe, você é nosso e nós somos teu (sic)”, dizia a mensagem.
No entanto, Vacarezza não contava com o olhar atento das lentes de um cinegrafista que flagrou o envio de torpedo do petista ao peemedebista em plena sessão. O caso repercutiu na imprensa nacional e o petista teve que se explicar aos companheiros de partido e, principalmente, ao PMDB, sob o risco de ter sua participação substituída na CPI. Apesar do tumulto, o líder do PT na Câmara, deputado Jilmar Tatto, afirmou que Vaccarezza permanece na comissão.
A ação de Vacarezza reforça as suspeitas de um acordo de blindagem entre o PMDB e o PT. A Delta Construções, um dos alvos da CPI, possui vários contratos com os governos do Rio de Janeiro e Federal. O ex-dono da Delta, Fernando Cavendish, é amigo pessoal de Cabral.
Um dos que está pouco se importando com Cachoeira é o ex-presidente e atual senador Fernando Collor (PTB-AL). Visivelmente empenhado em levar a cabo sua vingança contra a revista Veja, que seria uma das incitadoras da repercussão que deu início a seu processo de impeachment e consequente renúncia da presidência, há 20 anos, o senador não esconde a mágoa. Collor defendeu em Plenário a convocação do jornalista Policarpo Júnior, chefe da sucursal da Veja em Brasília, e do dono da publicação, Roberto Civita, para que prestem depoimentos à CPI. O parlamentar alega que é preciso esclarecer a relação de mais de 10 anos do jornalista com Cachoeira, bem como a utilização do contraventor pela Veja a fim de “obter informações e lhe prestar favores de toda ordem”.
A bancada do PT endossa o pedido de Collor sob o pretexto de investigar se profissionais da imprensa estariam cometendo crimes a partir da relação com criminosos. Conversas de bastidores dão conta de que o ex-presidente Lula, teria orientado o PT a atingir a revista com a CPI, pois assim desmontaria acusações que recaem sobre seu governo, a exemplo do mensalão.
Entre os argumentos contrários ao requerimento de Collor e do PT estiveram o caráter de perseguição e revanchismo conferido à convocação do jornalista e do dono da Veja, bem como foi considerado uma afronta à Constituição e ao exercício do jornalista em seu caráter investigativo e de relacionamento com as fontes. O requerimento para atingir a Veja partiu de um presidente acusado de corrupção e por representantes do partido acusado de operar o mensalão. A convocação não obteve êxito.
No entanto, o PT não quer só atingir a revista, mas também quer desacreditar e desmoralizar o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, justamente para comprometer o julgamento dos mensaleiros.
Outro petista membro da CPI, o deputado Paulo Teixeira (PT-SP), foi um dos que defendeu que a subprocuradora Claudia Sampaio, esposa de Gurgel, deveria ser convocada para prestar esclarecimentos sobre por que ficou um ano sem investigar as ligações de Cachoeira com o senador Demóstenes Torres. O parlamentar argumentou que se o povo goiano soubesse antes das informações hoje reveladas sobre Demóstenes talvez ele não teria sido eleito senador. O Supremo Tribunal Federal (STF) saiu em defesa do procurador-geral e a estratégia de tentar atacar Gurgel repercutiu negativamente para a CPI.
Casal Iris mira em Perillo
Também integrante da CPI mista, a deputada Íris de Araújo (PMDB) tem como alvo principal seu adversário político o governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB). Casada com o ex-governador de Goiás, Iris Rezende (PMDB), ela promete ser um calo no sapato de Perillo. Entre as primeiras providências na CPI, ela solicitou investigação de contas bancárias de Perillo, Demóstenes e Cachoeira no exterior.
O casal Iris é o maior rival político de Perillo. Iris Rezende disputou e perdeu para ele a última eleição para o governo goiano, em 2010. A grande influência de Demóstenes no estado também ameaçava o poderio da dupla que agora aposta na derrocada dos dois.
Demóstenes foi um dos mais complicados com as operações que investigam a atuação da quadrilha do contraventor. Sua relação com Cachoeira veio à tona e, como preço, ele já pagou com a saída do partido, o DEM, e procura se defender perante o Conselho de Ética do Senado e à Justiça. A cassação é uma questão de tempo.
Ao colher depoimento do ex-vereador de Goiás Wladimir Garcez, apontado como um dos principais auxiliares de Cachoeira, o relator da CPI, Odair Cunha (PT-MG), foi acusado de direcionar as perguntas para prejudicar o governador Perillo (PSDB). Segundo os tucanos Fernando Franceschini (PR) e Carlos Sampaio (SP), o relator fazia perguntas mais amenas quando se tratava da Delta nacional e do governador Agnelo, mas era contundente e incisivo com perguntas relacionadas ao governador de Goiás.
O petista Odair Cunha fez uma série de perguntas ao ex-vereador sobre o envolvimento da quadrilha de jogo ilegal de Cachoeira com o governador de Goiás, o tucano Marconi Perillo, mas fez somente uma pergunta sobre a relação do bicheiro com o governador do DF.
Como integrante de um dos partidos com menor representação na CPI, o senador Randolfe Rodrigues (PSOL-AP) vem buscando chamar a atenção, mas ainda não disse a que veio. Ele tem cobrado maior acesso aos documentos sigilosos que estão sendo analisados. Reclama da falta de estrutura e também questiona os rumos que a CPI está tomando. Apesar das reclamações, o parlamentar ainda não demonstrou ter um foco preferencial de atuação, no entanto afirmou que nada justifica a demora na convocação de governadores e na quebra do sigilo da Delta nacional.
O deputado federal Luiz Pitman (PMDB-DF) pode manifestar alguma tendência a desfavorecer o governador Agnelo Queiroz visto que rompeu com o petista após ser demitido de seu secretariado no ano passado. Segundo alguns colegas de partido, Pitman teria se reaproximado de Agnelo, mas se ressente por ter sido preterido. A mágoa pode vir a falar mais alto.
Atiradores e alvos
Linha de atuação e objetivos de integrantes e outros políticos na CPI do Cachoeira
• Deputado federal Fernando Franceschini (PSDB-PR)
Atingir Agnelo Queiroz
• Deputado federal Cândido Vaccarezza
(PT-SP)
Proteger o governador Sérgio Cabral (PMDB-RJ)
• Senador Fernando Collor (PTB-AL)
Vingança contra a revista Veja (Policarpo Júnior e Roberto Civita) e contra os poderes constituídos representado pelo procurador-geral Roberto Gurgel
• PT
Desmoralizar revista Veja e o procurador-geral Roberto Gurgel por causa do mensalão
• Deputado Paulo Teixeira (PT-SP)
Ataque ao procurador-geral Roberto Gurgel por meio de convocação da esposa dele, a subprocuradora Claudia Sampaio, e ataque à revista Veja
• Deputada Federal Íris de Araújo (PMDB-GO)
Atacar os adversários políticos governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB), e senador Demóstenes Torres (ex-DEM)
• Deputado Federal Odair Cunha (PT-MG)
Atingir o PSDB ao atacar o governador Marconi Perillo
• Senador Randolfe Rodrigues (PSOL-AP)
Ataque à estrutura da CPI e condução dos trabalhos
• Deputado federal Luiz Pitman (PMDB-DF)
Mágoa do governador Agnelo Queiroz (PT-
DF)
• PSDB
Ataque ao deputado Protógenes Queiroz (PCdoB-SP) e ao governador Agnelo
• Deputado federal Anthony Garotinho
(PR-RJ)
Não é membro da CPI, mas aproveitou para atacar o adversário político, governador Sérgio Cabral (PMDB) em seu blog
• Lula
Atingir o procurador-geral Roberto Gurgel, enfraquecer o julgamento do mensalão, destruir o desafeto e governador Marconi Perillo e colocar a Veja no centro da crise
Protógenes também vira alvo
O PSDB, por meio do senador Cássio Cunha Lima (PSDB-PB), tentou impedir a participação do deputado Protógenes Queiroz (PCdoB-SP) como integrante da CPMI. Ele alegou que Protógenes tem ligações com o grupo de Carlinhos Cachoeira e, por isso, seria “direta e pessoalmente interessado na investigação”. Uma reportagem publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo indicou a proximidade de Protógenes com Idalberto Matias de Araújo, conhecido como Dadá, durante as investigações da Operação Satiagraha, comandada pelo deputado do PCdoB, que é delegado da Polícia Federal. O pedido do senador para que Protógenes fosse impedido de participar da CPMI não foi aceito pelo presidente da comissão, senador Vital do Rêgo (PMDB-PB).
O deputado Protógenes se defendeu alegando que foi o autor do pedido de investigação da CPI do Cachoeira e que teria todo direito de fazer parte dela.
Mesmo sem estar como membro da CPMI, o deputado federal Anthony Garotinho (PR-RJ) aproveitou a repercussão para atingir o adversário político, governador Sérgio Cabral (PMDB) ao publicar em seu blog fotos do governador e parte de seu secretariado em Paris com o dono da Delta, Fernando Cavendish. A Delta está no centro das investigações acusada de fazer parte do esquema controlado pelo contraventor Carlinhos Cachoeira.
A sociedade brasileira testemunha a transformação da CPMI do Cachoeira em um palco de guerras pessoais e partidárias, e assim como seu inspirador, o Carlinhos Cachoeira, assiste de camarote a guerra de interesses que se sobrepõe ao interesse da Nação.